Brasília sempre carregou o mito de ser a “capital do rock”, herança dos anos 80 em que Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial transformaram o Plano Piloto em vitrine nacional. Mas a história não se encerra ali. Nas margens, longe dos holofotes oficiais, Ceilândia ergueu sua própria narrativa sonora. É nesse território periférico, marcado por contradições e pulsante diversidade cultural, que nasceu em 2014 a banda Baratas de Chernobyl — um nome que já anuncia resistência, sobrevivência e urgência.
A gênese e a estética
O grupo surgiu da fusão de músicos vindos de projetos como Nove Milímetros e Satélite Sonoro, consolidando uma formação que hoje reúne Elvis Rutherford (voz), Márcio Vilas Boas (baixo), Ney Corrêa (bateria), Alê Santos (guitarra) e Robson Gomes (guitarra e sintetizador). Suas influências atravessam o oceano: Joy Division, Echo and the Bunnymen, The Cure e The Smiths, mas também dialogam com o rock nacional dos anos 80 — Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Hojerizah, Violeta de Outono. O resultado é um pós-punk sombrio e dançante, que carrega tanto melancolia quanto catarse coletiva.
Projetos e ocupações culturais
Mais do que uma banda, Baratas de Chernobyl se tornou um coletivo cultural. Criaram a produtora BC e foram idealizadores do Ponto de Cultura Unindo Tribos, espaço que abriga ensaios, shows e encontros de artistas independentes. Ali, Ceilândia reafirma sua vocação criativa, mostrando que a periferia não é apenas dormitório, mas também laboratório de arte e contestação.
Entre os projetos, destaca-se o Rock no Cio, lançado no aniversário de Brasília: nove edições mensais no Cio das Artes, reunindo bandas do Distrito Federal e DJs convidados. O objetivo é claro — promover intercâmbio, devolver às bandas independentes o palco e o público, e criar uma cena que não dependa da nostalgia do Plano Piloto.
Reconhecimento e trilhas sonoras
A força autoral da banda já ultrapassou fronteiras locais. Foram selecionados para compor a trilha sonora do filme “Sissi: Insólita Liberdade”, obra de Maurício Carvalho de Sousa que denuncia as fragilidades do sistema judicial brasileiro. O som da Baratas de Chernobyl, carregado de densidade e poesia urbana, dialoga com o drama da protagonista injustamente acusada, reforçando a ideia de que música também é denúncia e resistência.
Além disso, conquistaram o 1º Festival de Música de Ceilândia para Brasília, realizado pela Telrex Eletrônica, e marcaram presença em eventos como o Festival Ferrock e apresentações na Casa do Cantador. Cada show é uma experiência visceral: guitarras cortantes, sintetizadores hipnóticos e letras que falam do cotidiano, da solidão e da luta, transformando a plateia em cúmplice de uma catarse coletiva.
Rock Brasília e a periferização da identidade
O ensaio sobre o rock brasiliense precisa ir além da mitologia dos anos 80. O Plano Piloto cristalizou uma estética que virou produto, mas Ceilândia e outras satélites reivindicam uma identidade própria. O rock da periferia não busca ser “a nova Legião Urbana”; ele traduz contradições reais, tabus e conflitos contemporâneos. É música que nasce da exclusão cultural, da falta de políticas públicas, mas também da potência criativa de quem insiste em existir.
Baratas de Chernobyl simboliza esse movimento. Como baratas em meio à radiação, sobrevivem ao descaso e à invisibilidade, reafirmando que o rock ainda é confronto, ainda é resistência. Seus arranjos não são entretenimento descartável: são ruído necessário, poesia sombria e pulsante que ecoa da Ceilândia para o Brasil.
O mito da “capital do rock” precisa ser desmistificado. Brasília não é apenas o Plano Piloto dos anos 80; é também Ceilândia, Samambaia, Taguatinga. É nas margens que o rock se reinventa, e Baratas de Chernobyl é prova viva disso. A banda não apenas toca: ela cria espaços, projetos, coletivos, trilhas sonoras. É música que se faz ensaio, manifesto e resistência.
Em tempos de massificação cultural, o som da Baratas de Chernobyl lembra que o rock continua sendo uma arma estética e política. E que, mesmo quando tudo parece ruir, há sempre baratas sobrevivendo ao caos — e transformando ruído em arte.
Nenhum comentário:
Postar um comentário