Barbarella B e o Manifesto Modo B
O grito da periferia candanga
Se Brasília já foi vendida como “capital do rock”, Ceilândia e suas satélites sempre viveram outra história — menos plástica, mais visceral. O Manifesto Modo B surge como um grito coletivo contra a caretice do pop/rock brasiliense embalado para presente. É a afirmação de que a periferia pulsa, cria e resiste. Fanzines, bares cheios (ou nem tanto), riffs distorcidos e letras que falam da vida real: esse é o DNA de um movimento que não aceita ser reduzido a produto nostálgico dos anos 80.
É nesse caldo cultural que nasce, em 1996, a Barbarella B. Formada por músicos de Ceilândia, a banda é a tradução sonora do manifesto: rock alternativo dançante, garage psicodélico, samba-rock distorcido e soul setentista. Uma mistura que não pede licença, mas ocupa espaço. Suas letras são crônicas urbanas — falam do folclore candango, da chacina de trabalhadores na construção de Brasília, da truculência policial, das lendas urbanas que moldam a identidade periférica. É música que não foge do conflito, mas o transforma em groove.
Discografia e trajetória
Uma fita demo e três EPs independentes.
Participação na coletânea AMP.SÔNICA (2000), ao lado de onze bandas de todo o país.
Presença em festivais como Cult 22, Ferrock, Modo B e até o Festival de Música das Escolas Públicas de Ceilândia.
Shows em casas e bares do DF e entorno, sempre reafirmando sua identidade.
Sonoridade
Imagine os Kinks e os Small Faces atravessando o Eixo Monumental e encontrando o samba-rock dos anos 70. Adicione psicodelia, riffs viajantes e refrões poderosos. O resultado é um powerpop candango, urbano e sincero. Barbarella B não copia — reinventa.
Integrantes
Robson Gomes – guitarra e vocal
Sérgio Passos – guitarra e órgão
Robson Freitas – bateria e percussão
Ulisses França – guitarra, baixo e violão
Thomé de Souza – baixo e vocal
Contexto social e cultural
O Distrito Federal mantém o Plano Piloto como centro do poder, enquanto as cidades-satélites orbitam em sua volta como periferias. Desde sua inauguração, milhares de brasileiros migraram para o DF em busca de oportunidades, mas foram distribuídos segundo o nível socioeconômico, gerando exclusão cultural e falta de investimento em políticas artísticas. Essa condição condenou as satélites a serem cidades-dormitório, mas também trouxe diversidade cultural e demanda por expressão.
Nesse cenário, o Modo B e bandas como a Barbarella B se tornam alternativas de resistência. A arte fortalece o espírito crítico e cria identidade coletiva, enfrentando a massificação cultural e a falsa rebeldia do pop/rock brasiliense. Enquanto muitas bandas buscam ser o “novo Legião” ou o “novo Capital”, Barbarella B reafirma que a verdadeira contestação nasce da periferia, com autenticidade e suor.
Por que importa
Enquanto o mainstream insiste em fabricar “novos ícones”, Barbarella B e o Modo B lembram que a verdadeira rebeldia não vem do Plano Piloto, mas das satélites. É a periferia que mantém vivo o espírito contestador do rock, com autenticidade e resistência.
Se a Rolling Stone tivesse que apontar um símbolo da resistência cultural brasiliense, seria aqui: no som ácido e dançante da Barbarella B, e no manifesto que insiste em dizer que o rock não é só nostalgia — é presente, é luta, é identidade.
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