terça-feira, 5 de maio de 2026

BARBARELLA B: O TRANSE URBANO DA PERIFERIA CANDANGA

 

Barbarella B: o transe urbano da periferia candanga

Há bandas que não apenas tocam, mas instauram atmosferas. A Barbarella B, formada em 1996 e hoje quinteto, é dessas raras forças que transformam o palco em ritual e a música em manifesto. Seu nome, inspirado na heroína sensual dos quadrinhos psicodélicos dos anos 60, já anuncia a viagem: ficção científica, delírio pop e contracultura. Mas é no asfalto de Ceilândia que essa ficção encontra coração e voz.

No Rock Periférico, na Casa do Cantador, a banda mostrou por que é uma das mais autênticas da cena independente do Distrito Federal. Com faixas como Incansável Morador de Ceilândia e Trem Fantasma, costuradas por relatos poéticos e letras beatniks, o grupo levou o público a um transe urbano. Cada música foi encenada como pequena peça teatral, onde as dores e os sonhos da periferia se tornaram corpo e discurso. O público não apenas assistiu: participou de um grito coletivo, um chamado de resistência e identidade.

A sonoridade da Barbarella B é um laboratório vivo. Inicialmente power trio, depois quarteto e agora quinteto, incorporando Lizz França, filho do vocalista, no baixo, violão e sintetizador, além de backing vocals harmonicamente incindentais. O grupo faz um rock alternativo dançante que mistura o garage rock dos anos 60, o soul e a black music dos anos 70, R'n'B, o samba-rock nacional e a psicodelia viajante. Um tropicalismo de vanguarda, é um powerpop de refrões ritmados, riffs distorcidos e grooves pesados, que dialoga tanto com Kinks e Small Faces, Jorge Ben e Tim Maia, quanto com o folclore candango. Suas letras falam de cotidiano, lendas urbanas e personagens históricos: da chacina de trabalhadores na construção de Brasília, a tragédia da construtora Pacheco Fernandes ao caso Mário Eugênio, da truculência da GEB às origens das cidades-satélites ao assassinato de Ana Lídia. Tudo se transforma em mitologia periférica, em arquétipos de conduta moral, em poesia marginal.

Essa fusão de estilos e narrativas faz da Barbarella B uma banda vanguardista, que não se limita a repetir fórmulas, mas reinventa tradições sob um olhar contemporâneo. É rock dançante e ácido, urbano e sincero, que valoriza o autoral e abre espaço para o novo. Não por acaso, a banda não apenas participa de festivais — como Cult 22, Ferrock, Módulo B e Carnarock — mas também organiza e produz eventos, como o Rock na Rua! e Festival Módulo B, além de mostras de fanzines e oficinas, incentivando outras bandas independentes a ocuparem o palco e a cena. Sua trajetória é marcada por coletâneas, EPs e presenças em festivais que consolidam sua relevância nacional, mas é na Ceilândia que sua força se revela mais intensa: como guardiã de uma cultura que insiste em nascer nas margens.

A Barbarella B é mais que música: é performance, é resistência, é celebração da periferia como centro criativo. Sua arte é um convite a dançar e pensar, a sentir e refletir. É a prova de que o rock candango não é apenas sobrevivência, mas invenção — e que das ruas de Ceilândia brota um som capaz de incendiar corpos e consciências.

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